Mas ninguém nunca conseguiu. Ela preferia não ser de ninguém, porque assim não trairia ninguém. Não teria de olhar nos olhos de qualquer um e contar qualquer mentira, apenas para não magoar. E não teria de enganar-se, fingindo acreditar que alguma coisa, em algum momento, poderia durar para sempre.
Sempre acreditou nas lembranças, eram elas que a tinham. Pois mesmo tendo vida própria em alguns momentos, as lembranças esmoreciam com o tempo e ela não tinha de dar satisfação à elas.
Não era de ninguém e isso nunca a preocupou. Nunca sentiu o vazio que algumas pessoas iriam sentir. Pelo contrário, sempre sentiu-se completa por poder chegar em casa e não encontrar nada. O nada era algo bonito e infinito aos seus olhos. O nada seria sempre um papel em branco esperando a pressão da mão, a tinta que criaria um mundo novo.
E ela gostava de recomeços."

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